Resumo
O presente estudo realizou uma revisão integrativa da literatura com o objetivo de compreender como o desabastecimento de medicamentos se articula às iniquidades em saúde no contexto brasileiro. A análise de dez estudos revelou que a escassez de medicamentos essenciais não decorre apenas de falhas logísticas ou operacionais, mas reflete desigualdades estruturais, econômicas e institucionais profundamente enraizadas no sistema de saúde. Os achados evidenciam a fragmentação da gestão federativa, o subfinanciamento da assistência farmacêutica, o descompasso entre regulação e demanda, e a baixa atratividade comercial de medicamentos voltados a doenças negligenciadas. Além disso, observou-se que o desabastecimento afeta de forma desproporcional populações em situação de vulnerabilidade social, com destaque para mulheres negras, povos indígenas e habitantes das regiões Norte e Nordeste, em razão da sobreposição de barreiras étnico-raciais, territoriais e de classe. A judicialização, embora represente uma via de acesso, tende a beneficiar regiões mais estruturadas, acentuando desigualdades. As estratégias existentes, como programas federais e mecanismos regulatórios, ainda carecem de coordenação intersetorial, equidade territorial e capacidade de resposta a contextos específicos. Conclui-se que o desabastecimento de medicamentos constitui um marcador das desigualdades no acesso à saúde e exige respostas estruturais, sustentadas em justiça distributiva, fortalecimento do SUS e superação do modelo centrado no interesse de mercado.